A escrita nos terreiros
(Sergio Ferretti)
A transmissão do saber em comunidades religiosas
Isa Earl Castillo, norte-americana radicada em Salvador há quinze ano, analisa com brilhantismo a interação entre oralidade e escrita nos processos de transmissão do saber das comunidades religiosas afro-brasileiras. Desafia a velha idéia de que os terreiros sejam concebidos como espaço exclusivo de oralidade, constatando sua convivência inescapável com a escrita. Com habilidade no trabalho de campo, apresenta críticas sutis tanto a determinadas categorias de praticantes quanto a colegas de academia. Castillo entre 1998 e 2005, visitou mais de vinte terreiros e entrevistou dezenas de pessoa. Aprendeu que dentro do candomblé é preciso observar e não fazer perguntas, pois quem pergunta não é bem visto, sobretudo se faz a pergunta errada. Confirma que o saber no candomblé é esotérico de difícil acesso e divulgação restrita, constituindo um mistério pouco compreensivel à modernidade ocidental. Que a posse do conhecimento religioso produz status. Portanto saber e poder estão relacionados. Secretos e adquiridos gradativamente ao longo do tempo,os fundamentos desse saber requerem um sistema ierárquico com pequeno número de conhecedores, tornando-se um bem de alto valor que gera complexa rede de poder dentro da comunidade. A lógica do segredo que também existe no culto aos orixás na África, no Brasil seria ampliada pelas condições da escravidão e do ambiente de perseguição em que surgiu o candomblé. A autora discute as interrelações complexas entre referências iorubas, muçulmanas e cristãs no uso da escrita, pelo povo de candomblé no Sec. XIX. Indica que usos da escrita (e também da fotografia) desde então nos candomblés são mencionados, embora marginalmente, em todos os antigos estudos. Mas costata a tendência da etnografia, em geral a desconhecer a escrita nos terreiros como aspecto relevante, o que relaciona a idéia enraizada de que esse meio de transmissão e registro de saber seria uma deturpação da pureza original e que as culturas ágrafas estariam congeladas no tempo, e não teriam história. Castillo em contrapartida cosnstata e analisa a existência na pratica privada de “cadernos de fundamentos”, usados como auxilio á memória, os quais se assemelham a um diário pessoal, embora sem que se observe seu uso sistemático, como na “santeria” cubana,onde muitos eram comercializados,enquanto na Bahia tinham circulação clandestina. Ela lembra que Ruth Landes, já na década de 1930, teve conhecimento de um desses cadernos e analisa detidamente o caso de legendário manuscrito conhecido no Axé Opô Afonjá do Rio de Janeiro a partir de 1920, que circulou entre sacerdotes mais elevados. Informa que ele contém setenta contos da versão afro-brasileira dos versos de Ifá e começou a ser publicado em diferentes edições a partir dos anos de 1960.Teve edição integral em Ingles, na Nigeria em 1980, sendo divulgado nop Brasil na década seguinte.Arqumenta que as diversas contestações sobre a originalidade desse texto mostram que a polêmica quanto a suas origens é tão interessante quanto a sua existência e valorização. E indaga como tantas pessoas chegaram a ter cópias de um texto guardado com tanto sigilo, por ter sido portador de segredos rituais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário