Os dois autores vêem a doença como um desequilíbrio em nosso sistema auto-organizador. É como se de repente, por acúmulo de vários fatores, algo deixasse de funcionar nesse sistema invisível que nos mantém. “Segundo a física, todas as coisas surgem de um vazio não manifesto e retornam a ele algum dia. Esse campo eterno, infinito, invisível, além do tempo e do espaço, alicerça o Universo e o sustenta organizado. É por isso que toda a natureza é permeada de ordem, inteligência e auto-organização. Isso serve também para nós, seres humanos”, afirmam. A doença, segundo eles, surge de uma desconexão com esse campo inteligente e organizador, que as tradições religiosas chamam de Deus ou natureza primordial. E isso acontece quando deixamos de realizar o que nos trouxe à vida. “Quando nos convocamos a existir, há uma promessa inerente a nosso ser. Estamos aqui para realizar uma tarefa pessoal e intransferível, (...) para trazer uma diferença ao Universo”, diz o psicólogo e antropólogo Roberto Crema no livro Saúde e Plenitude (ed. Summus). Essa grande obra, segundo Crema, é ser o que a gente realmente é, atender à nossa vocação mais essencial. “Nascemos para evoluir e adoecemos quando nos deixamos estrangular nesse curso singular de aperfeiçoamento rumo ao que somos”, diz Roberto Crema, membro do Colégio Internacional dos Terapeutas, entidade que procura acrescentar a dimensão espiritual no processo terapêutico.
Aqui, as principais tradições e doutrinas espirituais falam de seus recursos em direção dessa poderosa alquimia interna, que pode contribuir para a cura e ajudar na realização do ser.
Além de anunciar a boa-nova, que falava de amor e perdão, o que Cristo fez mais na Terra foi curar: devolveu a visão a cegos, restabeleceu a saúde de leprosos, fez paralíticos andarem. “Nos evangelhos encontramos Jesus dizendo, indiferentemente: ‘A tua fé te salvou’ ou ‘A tua fé te curou’”, escreve o padre ortodoxo francês Jean-Yves Leloup no livro Cuidar do Ser, Fílon e os Terapeutas de Alexandria (ed. Vozes). “Em grego, se usa a mesma palavra para salvação e saúde: soteria”, diz ele. Isto é, segundo o cristianismo não existe saúde do corpo que não envolva também a cura, ou a salvação, da alma. E essa ação se realiza por meio da fé. “A força da fé unifica o ser internamente e atrai a graça divina para o que necessitamos”, diz Leloup. Todo o caminho cristão é feito para ativá-la. Orações, cerimônias religiosas, música, reflexões sobre as palavras do Evangelho e exercícios de meditação ou contemplação são alguns dos instrumentos para reavivar essa força interna.
Já no catolicismo mais popular, as promessas têm um lugar especial quando o assunto é cura. Mas não são todos que aprovam a prática. “A promessa é como uma troca: eu faço um imenso sacrifício para obter alguma coisa. Mas Deus não precisa disso. Basta pedir com muito fervor”, diz o padre jesuíta Rui Melati, da Igreja São Luís, de São Paulo. Para o religioso, Deus pode usar a intermediação de santos ou pessoas que naturalmente tenham o poder de cura. Ou então intervir diretamente, pelo milagre, que é uma cura sem explicação dentro da realidade comum. Nas orações de cura, algumas vezes se empregam óleo ou água consagrados ou impostação das mãos. Os antigos padres do deserto (séculos 4 e 5) preferiam repetir continuadamente o poderoso nome de Jesus em aramaico (Yêshua) ou repetir em voz baixa a expressão ma-ra-na-ta (“Vinde, ó Senhor”). Na Rússia, o pai-nosso recitado em uma única respiração, como conta Paul Dukes no livro De um Único Alento (ed. Horus) também era reconhecida com uma oração de grande efeito curativo.
A doença, no candomblé, pode ser detectada por meio de um oráculo: o jogo de búzios. Já na umbanda, são índios, pretos velhos e crianças, incorporados em médiuns, que aconselham o doente. Com base na consulta, decide-se o tratamento. “No candomblé, temos algumas entidades ligadas à cura. A principal dela é Omulu, o orixá (divindade) relativo às doenças”, diz o doutor em sociologia Armando Vallado e autor do livro Iemanjá, a Grande Mãe Africana do Brasil (ed. Palas Athena). “A história do orixá explica essa relação”, diz ele. Conta-se que o pequeno Omulu foi rejeitado pela mãe porque tinha o rosto coberto de varíola. Iemanjá ouviu o choro do bebê perto da praia e cuidou dele. Fez um capuz de palha para esconder as marcas do rosto, e Omulu se sentiu de novo amado. Depois disso, o orixá se dispôs a cuidar de quem estivesse doente, como ele. Nas curas, as pipocas – comida relacionada ao orixá porque lembra as feridas da varíola – são passadas no corpo do doente. Ossãe, o orixá das florestas, se encarregará das folhas escolhidas para banhos e infusões, com a ajuda de Oxumaré, o orixá da água. Também serão feitas oferendas (comidas e flores) a vários orixás com a intenção de cura. Orações, músicas e cantos auxiliarão o tratamento.
Nos centros de umbanda de mesa branca (que se inspira no kardecismo, ou espiritismo), as indicações serão de orações e ações caridosas recomendadas pelos espíritos por meio de médiuns.
grande arsenal de recursos relativos à cura. O primeiro deles é o chamado passe magnético. “Ele usa o fluido vital, ou magnetismo, do médium e do ambiente circundante para equilibrar a pessoa que eventualmente esteja doente. A distribuição desse fluido é feita pelos espíritos que auxiliam na sessão”, diz André Siqueira, engenheiro de softwares, que coordena diversos grupos de estudos da doutrina em Brasília. Segundo André, os espíritos distribuem com sabedoria esse fluido, ou energia, ainda não reconhecido pela ciência e invisível a nossos olhos, para que não falte para ninguém. A água, que recebe essa energia magnética com intenção de cura, também é usada no tratamento. “Ela sempre deve ficar armazenada num ambiente bastante calmo e tranqüilo, pois continua recebendo as influências do ambiente onde está”, aconselha André. O livro Mesmer, a Ciência Negada e os Textos Escondidos (ed. Lachâtre), do jornalista Paulo Figueiredo, é uma das obras que analisam minuciosamente o emprego da energia vital no processo de cura de acordo com o espiritismo.
Outro recurso utilizado pelos adeptos dessa religião é a cirurgia espiritual, que pode se manifestar, ou não, no corpo físico. “As operações podem ocorrer somente no perispírito, o corpo de energia sutil que envolve o corpo físico, e não deixar nenhum sinal aparente. Ou, então, se manifestar no corpo físico, com sinais visíveis, como cicatrizes em retiradas de tumores”, diz o instrutor. A desobsessão, quando necessária, também é empregada no tratamento. “Uma pessoa pode adoecer por influência de um espírito que está ligado a ela e não a deixa viver em paz”, diz ele. Através do diálogo com o espírito, feito por meio de um médium que o incorpora, e também com orientação dirigida à pessoa que está viva, essa ligação prejudicial à saúde física e espiritual é desfeita. Os últimos recursos são o aperfeiçoamento da consciência, feito por meio da doutrinação, o exercício da oração constante e as obras caridosas.
Religiões antigas, como o hinduísmo, deram origem a muitos tipos de medicina e práticas. Na tradição hindu, se enfatiza a união entre o corpo e a alma – e é a ioga quem faz isso. “Na Índia, existem hospitais de iogaterapia, que é o emprego da ioga para tratar doenças”, diz Horivaldo Gomes, carioca que foi diversas vezes a esse país para aprender a abordagem do método. Hoje ele é instrutor de iogaterapia em várias cidades do Brasil. “A ioga como um processo específico para o tratamento de doenças traz resultados rápidos e surpreendentes”, diz. A diferença entre a ioga, que naturalmente já garante equilíbrio e boa disposição, e a iogaterapia são as técnicas direcionadas para os diversos tipos de doença. “Ela é mais precisa”, afirma Horivaldo. A medicina aiurvédica, que nasceu e foi codificada com base nos Vedas, as escrituras sagradas do hinduísmo, também é usada para a cura. Ela se fundamenta no equilíbrio dos três doshas, as energias predominantes de cada indivíduo. O bem-estar é garantido por meio de alimentação, massagens, exercícios físicos, lavagens intestinais e remédios de ervas e substâncias minerais. Para quem segue a religião hinduísta, acrescenta-se o uso de mantras e determinadas práticas de purificação, como o agni rotra, a cerimônia do fogo. Hoje, tanto a iogaterapia quanto a medicina aiurvédica ganharam independência de sua tradição espiritual de origem e se tornaram universais. “Elas podem ser usadas por qualquer pessoa, independentemente da religião”, diz Horivaldo.
O budismo ganhou as cores das culturas dos países onde foi difundido, mas sempre se baseia nos ensinamentos de Buda. No budismo tibetano, o Buda da Medicina é muito importante. Sua figura se parece com a do Buda Shakhiamuni, o Buda histórico, nascido há 2,5 mil anos, mas sua pele é azul, indicando um alto nível espiritual. Seu mantra é: Thayata Om Bengadze Begandze Maha Begandze Begandze Rantza Samungate Soha. Os budistas tibetanos acreditam que a natureza dos Budas é nossa natureza primordial. “Somos todos Budas e ao invocar o Buda da Medicina despertamos a parte curadora que existe em nós”, diz a monja Tenzin Namdrol, de Petrópolis, RJ, ordenada junto a lamas devotados ao buda curador. Ela é testemunha dessa ação poderosa. Portadora de fibromialgia, uma inflamação dos nervos, se sentiu curada ao traduzir um livro: Em Busca do Buda da Medicina, do terapeuta americano David Crow (ed. Pensamento). Na obra, David narra sua vida entre médicos tibetanos e indianos, descrevendo abordagens de cura. “As dores diminuíram e creio que a ação do Buda da Medicina ajudou”, diz ela.
“A cura deve atingir diferentes níveis. Às vezes o corpo é curado, mas ainda restam emoções em desequilíbrio. Outras vezes, o físico e as emoções ficam bem, mas os níveis sutis, ligados a nossa mente, permanecem afetados. E a doença pode voltar”, diz a veneranda Sarah Tresher, do Centro Siwalha, do Rio de Janeiro, que vem ao Brasil anualmente para dar cursos ligados à saúde. “Por isso, no budismo se procura atingir todos esses níveis com mantras, preces e cerimônias de purificação”, diz ela.
Já nas linhas espirituais japonesas não budistas, é famoso o johrei, um passe que utiliza a energia vital que chega do Universo pela técnica de imposição de mãos. Segundo os membros da Igreja Messiânica, que o usam, pesquisas científicas indicam que durante o johrei o cérebro passa a registrar ondas alfa, que só aparecem quando a pessoa está relaxada ou concentrada, e ondas teta, que aparecem durante uma meditação profunda. Com isso, o cérebro passa a produzir betaendorfinas, substâncias que aliviam a dor e promovem a saúde.
Os judeus cabalistas (que seguem a Cabala, a interpretação mística da religião judaica) acreditam que as letras hebraicas são como matrizes que emitem luz continuamente. E que, agrupadas de determinada maneira, podem transmitir também a cura. Dizem eles que para receber essa energia radiante basta ficar diante das letras hebraicas – não é preciso saber sequer seu significado. Só passar os olhos ou as pontas dos dedos pelos 72 nomes de Deus (que são 72 agrupamentos de três letras hebraicas) já é suficiente para receber essa forte influência. “Com elas, podemos acessar a causa da doença, a sua semente espiritual”, explica o rabino Shmuel Lemle, do Centro de Estudos da Cabala. “Quando uma pessoa acumula um determinado nível de desconexão com a centelha da Luz do Criador que existe dentro dela, ela adoece”, diz o rabino. E para curá-la é necessária uma reconexão interna com essa Luz Divina. Visualizando as formas das letras hebraicas durante meditações, uma enorme quantidade de luz é devolvida à pessoa, acreditam os cabalistas.
“É possível fazer meditações com seqüências de letras que têm a energia de cura (como as letras Men-Hai-Shin), além de seqüências que ativam outros estados benéficos.” O rabino Shmuel enfatiza que as matrizes de luz podem ser usadas por pessoas de qualquer religião e não apenas por judeus. “Pode-se considerá-las como ferramentas universais”, garante.
Outro grupo judaico especialista em cura – Grupo Healing, da Comunidade Shalom – ajuda várias pessoas adoentadas ou mesmo em fase terminal. Voluntários percorrem casas e hospitais, trazendo a força das canções judaicas e de suas orações junto aos doentes e a suas famílias. Muitos dos integrantes do grupo, criado pela psicóloga Esther Amarante, foram pessoas também doentes que agora se dedicam a ajudar os outros.
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